terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Orações Subordinadas não precisam ser um bicho de sete cabeças.


Muita gente se desespera ao deparar com certas matérias da gramática. O estudo das orações subordinadas é um deles. Não é de se estranhar, já que nessa matéria aparecem extensas nomenclaturas que podem assustar um aluno que chegou despreparado ao tema. Imagine você ter de classificar um período como “oração subordinada substantiva objetiva direta reduzida de gerúndio”! A oração pode ter duas palavras, mas seu nome tem oito. Isso pode traumatizar, mesmo, se o professor não conduzir o aluno cuidadosamente até esse ponto.

O fato é que “orações subordinadas” não são difíceis de compreender nem de classificar. São mesmo muito simples, e o nome extenso diz muito sobre elas, facilitando muito sua compreensão. Apenas é preciso que o professor leve o aluno com cautela e paciência por esse caminho cheio de nomes.

Uma oração subordinada nada mais é do que um termo da oração que é substituído por outra oração. Se é uma oração, deve ter um verbo. O aluno tem de chegar a esse ponto conhecendo bem os termos de uma oração simples: ele precisa saber com segurança o que é sujeito, advérbio, objeto direto, objeto indireto, adjetivo, complemento nominal, etc. Se o aluno conhecer bem esses tópicos, parte-se daí para explicar como esses termos podem ser substituídos por orações.

Vejamos…

Ontem, preparei seu café da manhã.”

O termo “ontem” é um advérbio de tempo, certo? Até aí, bem fácil! Mas o que acontece se substituirmos esse advérbio por uma oração, isto é, um conjunto de palavras que inclui um verbo e tem a função de advérbio de tempo? Algo mais ou menos assim:

“Quando cheguei, preparei seu café da manhã.”

É aí que o professor deve mostrar que há dois verbos na oração. Fácil identificar a oração principal, pois ela é mais plena de sentido, enquanto a outra a complementa. Assim, “preparei seu café da manhã” é a oração principal e “quando cheguei” é a oração subordinada.

Então, o aluno não terá dificuldade em perceber que a oração subordinada tem a mesma função sintática do termo “ontem” no exemplo anterior. Portanto, a oração toda é nada mais que um advérbio de tempo. Só nos resta, agora, dar um nome pra essa oração. Se ela é um advérbio de tempo e também é uma oração subordinada, então ela é uma “oração subordinada adverbial temporal”.

Até aqui foi fácil, né? Deve ter ajudado a tirar um pouco daquele temor das orações subordinadas. Vamos complicar um pouco, só para ver que não há mistério nos nomes tão extensos dessas orações.

Vamos alterar ligeiramente nossa frase.

“Ao chegar, preparei seu café da manhã.”

Uma simples troca de tempo verbal que torna dispensável o uso do conectivo “quando”. Mas o sentido da oração subordinada continua sendo o mesmo, e é fácil perceber que o que excluiu esse conectivo foi o uso do verbo no infinitivo. Portanto, essa oração passa a ter o assustador nome de “oração subordinada adverbial temporal reduzida de infinitivo”.

Outro exemplo:

“Chegando em casa, preparei seu café da manhã.”

Nem vamos perder tempo: é uma “oração subordinada adverbial temporal reduzida de gerúndio”. Um nome comprido (sete palavras) para uma oração tão curta (três palavras).

Meu objetivo neste artigo não é cobrir todas as orações subordinadas, mas oferecer ao aluno um método de estudo que facilite a compreensão de um assunto que pode ser traumatizante, embora não seja difícil. Se você precisa estudar orações subordinadas, esteja bem preparado para reconhecer as funções sintáticas dos termos da oração. Conheça primeiro os substantivos (sujeito, objeto direto, objeto indireto, complemento nominal, predicativo e aposto), os adjetivos e os advérbios (de causa, consequência, condição, concessão, comparação, conformidade, finalidade, proporção e tempo).

Não se preocupe em decorar tabelinhas dos tipos de orações subordinadas existentes. Foque-se em saber identificá-las: separar a subordinada da principal e, depois, classificar a subordinada de acordo com sua função. A educação, há muito que não é feita na base da memorização. A “decoreba” já era! Apenas tenha em mente que as orações subordinadas não são um conhecimento transcendental, oculto, ou algo para iniciados. Apenas exigem que você conheça as funções sintáticas como pré-requisito para estudá-las. Não digo que são fáceis, mas certamente não são tão difíceis quanto parecem.

Espero ter colaborado para tornar esse tema mais palatável aos estudantes de gramática.

Obrigado pela atenção e bons estudos.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Síndrome do "Abra-te Sésamo"

É comum que autores iniciantes queiram embelezar seu texto usando um linguajar com o qual não estão acostumados, e por isso se vê muitos diálogos em segunda pessoa. Não há nada de errado em usar essa forma se a história narrada acontece em épocas passadas, ou em regiões nas quais normalmente as pessoas falam assim. Mas deve-se tomar um grande cuidado para evitar um erro que chamo de “Síndrome do Abra-te Sésamo”.


Se seu personagem fala em segunda pessoa, todos os pronomes e verbos devem ser flexionados nessa pessoa. Não se deve escrever “tu vai”, por exemplo, a não ser que o objetivo seja, justamente, destacar que o personagem erra na concordância. Mas não é a esse caso que me refiro. Tratarei aqui das situações em que uma história se passa no século passado, na antiguidade clássica, em um país estrangeiro, ou em qualquer lugar onde o uso da segunda pessoa seja adequado para caracterizar adequadamente o local e a época da narrativa.

E o que seria essa tal “Síndrome do Abra-te Sésamo”? É o erro de concordância verbal que o autor insere sem perceber. Ali Babá não usou a frase “Abra-te Sésamo” para abrir a caverna, nem tampouco os quarenta ladrões. Recordemos a conjugação do verbo abrir no imperativo:

Abre tu (segunda pessoa do singular)
Abra você (terceira pessoa do singular)
Abramos nós (primeira pessoa do plural)
Abri vós (segunda pessoa do plural)
Abram vocês (terceira pessoa do plural)

Portanto, se o pronome utilizado é “te”, deduzimos que a fala está na segunda pessoa do singular e, nesse caso, o verbo deveria ser “abre”, e não “abra”.

O correto é “Abre-te Sésamo”; jamais “Abra-te Sésamo”. Se não for usada a concordância correta, a caverna não se abre.

Autores desacostumados a falar em segunda pessoa frequentemente se esquecem de flexionar todos os verbos, deixando, volta-e-meia, em seu texto, alguns órfãos em terceira pessoa.

Vou ilustrar isso com um exemplo. Suponhamos que um autor esteja escrevendo uma história de piratas e o capitão está ordenando aos seus subordinados que cavem um buraco para enterrar o baú do tesouro.

“— Cavem logo esse buraco, seus parvos. Obedecei minhas ordens se não quiserem ter vossas gargantas cortadas. Se não tiverdes enterrado esse baú até o meio-dia, degolarei um de vós a cada minuto.”

Vejam que o capitão usa a segunda pessoa do plural não por afetação ou pedantismo, mas porque o autor escolheu essa forma como linguagem comum para os personagens devido ao contexto histórico-geográfico. Nesse caso, não há possibilidade de trocarem a segunda e a terceira pessoa por acidente, já que estão acostumados a falar assim. Então, por que a primeira ordem dada pelo capitão seria “cavem”, ao invés de “cavai”? E por que usou “quiserem” ao invés de “quiserdes”?

Esses deslizes ocorrem com bastante frequência. A falta de uso ou o uso errado no dia-a-dia leva os autores a descuidar da concordância. É compreensível, mas não desculpável. Um escritor deve zelar pela coerência e pelo bom uso da língua.

Então, se sua história demanda que os personagens usem a segunda pessoa em suas falas, lembre-se de cuidar para que todos os verbos e pronomes estejam dessa forma. Vá além: quando for usada a segunda pessoa do singular, lembre-se de que, no plural, também é preciso usá-la.

Se você fica mais à vontade usando a terceira pessoa e se sua história não precisa estar em segunda pessoa, não há mal nenhum em usar a forma que lhe é mais familiar, desde que zele sempre pela concordância, qualquer que seja sua escolha.

“Abre-te Sésamo” ou “Abra-se Sésamo”. Não há outra forma aceitável.

Use a concordância correta e as portas da caverna se abrirão para você, revelando os tesouros que procura.


Bons escritos.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Por que erramos os "porquês"?



Nos trabalhos de revisão que faço, é muito comum eu ver, mesmo um autor experiente, usar “porque” em lugar de “por que”. Havendo quatro formas de escrever, é comum que haja confusão e uso trocado. Mas há regras claras e precisas para uso de cada um, e dificilmente eu vejo erros diferentes desse: “porque” no lugar de “por que”.

E tenho uma teoria sobre o porquê disso.

A pessoa não lembra as regras e parte para o resumo, sem ir a fundo nos usos de cada caso. Na maioria dos cursos, e até mesmo nos sites de gramática, o resumo que aparece é assim:

Por que = Usado no início das perguntas.
Por quê? = Usado no fim das perguntas.
Porque = Usado nas respostas.
O porquê = Usado como um substantivo.

O grande vilão está em dizer que “porque” é usado nas respostas. Isso leva a pessoa a associar que, se não há ponto de interrogação, então não é pergunta, e deve-se usar “porque”. Mas vejam esse exemplo:

Eu não entendo por que você não gosta de mim.
Eu não entendo porque você não gosta de mim.

Na primeira frase, o significado é: “Eu não entendo por qual razão você não gosta de mim.”

Na segunda, entenda-se: “Eu não entendo, pois você não gosta de mim.” Não faz sentido, né?

Vejam como a falta da interrogação pode induzir ao erro. Para quem entende inglês, eu sugiro identificar nesse idioma se a palavra usada seria “why” ou “because”. Por haver, na língua inglesa, uma diferença fonética entre os dois termos, os falantes desse idioma não têm dificuldades de identificar quando usar um e quando usar o outro.

Fica fácil ver que se você usa “why”, deve traduzir para “por que” (ou “por quê” se for no final da frase). E, obviamente, se usa “because”, então a tradução é “porque” (esse apenas sem acento).

Além disso, há outro caso em que se usa “por que”. É quando introduz uma oração subordinada e pode ser substituído por “pelo qual”, “pelos quais”, “pela qual” ou “pelas quais”.

Se você está com pressa e precisa de um resumo, melhor ignorar onde cada um é usado e identificar que termo poderia substituí-lo. Isso evita a confusão causada por achar que “porque” é usado quando há ponto de interrogação no fim da frase.
Assim, a fórmula que proponho como resumo da matéria é:

Por que
pode ser substituído por “por qual razão” (seja numa afirmação ou numa interrogação); ou
pode ser substituído por “pelo qual”, “pelos quais”, “pela qual”, “pelas quais”;

Por quê
também pode ser substituído por “por qual razão”, mas no fim da frase;

Porque
pode ser substituído por “pois”;

Porquê
é um substantivo, o único que aceita um artigo como em “o porquê” ou “os porquês” e pode ser substituído por “motivo”.


Exemplos:

Por que fez isso comigo? Por qual razão fez isso comigo? (com interrogação)

É inexplicável por que ele viajou agora. É inexplicável por qual razão ele viajou agora. (Sem interrogação.)

Vou te explicar a razão por que vim. Vou te explicar a razão pela qual vim. (Atenção: “a razão” pode ser omitida, ficando subentendida. Vou te explicar por que vim.)

Você está bravo assim por quê? Você está bravo assim por qual razão? (No final da frase.)

Tirei férias porque estava cansado. Tirei férias, pois estava cansado. (Atenção: ao substituir por “pois” é preciso acrescentar a vírgula.)

Explique-me o porquê dessa burocracia toda. Explique-me o motivo dessa burocracia toda. (Substantivo.)

Parece que o resumo ficou grande, mas assim você evita muitos erros.


Espero ter ajudado.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Quando meu texto estará pronto?


Nas redes sociais há muitas páginas voltadas a escritores iniciantes onde trocam experiências e conselhos para aprimorar a escrita. Nelas há quem peça sugestões para elaborar personagens, outros questionam sobre soluções narrativas, ou querem dicas de como vencer o bloqueio de escritor, e assim seguem uns ajudando os outros.

Já respondi algumas dessas perguntas. Recentemente, duas delas, em particular, me chamaram a atenção, não tanto pelas dúvidas em si, mas pelas respostas que receberam. Achei que seria útil comentar essas dúvidas, pois um conselho de alguém inexperiente, por mais bem intencionado que seja, pode ser mais prejudicial que benéfico.

Vejamos a primeira questão.

A pessoa que pedia ajuda dizia ter escrito um conto que, depois de algum tempo de “descanso”, foi revisado e, agora, poderia ser considerado praticamente pronto. Mesmo assim, ao ler a história, o(a) autor(a) conseguia identificar algumas falhas, mas a correção exigiria uma reescrita bastante extensa. Perguntava, então, se deveria reescrevê-lo ou se poderia publicá-lo naquele estado, mesmo com os problemas que tinha, reconhecendo-o como um trabalho de segunda linha.

As respostas que surgiram eram mais ou menos assim:

“Se o texto passa a emoção desejada, considere pronto. Um conto precisa ir direto ao ponto e esses retoques alterariam a dinâmica da trama. Se fosse um texto mais longo até haveria espaço para ajustes, mas num conto…”

“Dê para uma pessoa aleatória ler. Se ela achar que está bom, considere pronto, porque temos a tendência de, a cada lida, querer mudar alguma coisa.”

O problema com esses conselhos é que se baseiam em premissas erradas. Mesmo que você escreva por hobby, não significa que possa abrir mão de uma atitude profissional. Se o(a) próprio(a) autor(a) reconhece que o conto tem falhas, como pode sequer cogitar que o conto seja liberado, publicado ou divulgado sem corrigi-las? A pergunta já revela, em si, uma certa preguiça. A pessoa se desanimou com a necessidade de fazer correções muito grandes no texto, porque daria muito trabalho, então estava disposta a deixá-lo assim e aceitar que não era sua obra mais primorosa.

Mas um autor mais experiente sabe que é justamente durante as revisões que mais aprendemos. Mesmo sendo amadores, se queremos aprender e, um dia, sermos reconhecidos pela qualidade dos nossos textos, não podemos admitir que nosso trabalho vá a público com erros que nós mesmos já identificamos. Já é ruim o bastante deixar passar os erros que não vimos; muito pior é conhecê-los e não corrigi-los.

O que há de errado, então, com as respostas que foram mencionadas acima?

Um conto realmente exige uma objetividade maior. Mas isso não quer dizer que as falhas possam ser negligenciadas. A dinâmica é afetada? Continue revisando. Modele essa massa até ficar satisfeito com o resultado.

E aí entramos na seara do segundo conselho: mostrar a uma pessoa aleatória e ver se essas falhas são percebidas. É bem possível – e eu diria que é praticamente certo – que esse leitor “randômico” ache o texto bom e não faça críticas a ele. Talvez não perceba sequer as falhas que já foram vistas por quem o escreveu. Mas isso não significa que ele esteja pronto. Isso só evidencia que o leitor médio é pouco exigente e, principalmente, não está treinado a analisar um texto de forma crítica, procurando as falhas e apontando-as ao(à) autor(a).

Vejamos agora uma segunda pergunta que garimpei nas redes sociais: quando considerar o texto pronto; quantas vezes revisar e a quem mostrar para ter uma opinião isenta?

Já ficou claro que não devemos mostrá-lo a qualquer um. Então, a quem entregar essa importante missão? Precisa ser uma pessoa que não tenha medo de nos apontar os erros que não percebemos. Uma pessoa que nos diga o que precisa ser dito, e não o que gostamos de ouvir. Nessa hora temos de estar abertos às críticas. Não queremos que nos passem a mão na cabeça e digam: “Que lindo! Adorei.”

Onde encontrar, então, essa pessoa? Certamente não será um parente ou amigo, que só nos trará elogios e, quando muito, dirá se gostou ou não da história, sem ir a fundo na gramática, na estrutura, no enredo, no ritmo, na coerência, na adequação, nos vícios e em outras falhas comuns dos iniciantes.

A pessoa escolhida, caso você esteja realmente disposto(a) a aprender a arte da escrita e nela se aprimorar, deve ser alguém que escreve melhor que você. Se encontrar alguém experiência em revisão e análise crítica, como um editor ou revisor, melhor ainda. Mas não são todos que têm a sorte de ter um parente ou conhecido com esse perfil.

A solução para esse impasse é contratar um profissional, e nisso pesarão os seus objetivos pessoais. Se você só pretende publicar um blog e não tem intenção de se tornar um escritor profissional nem quer refinar sua arte, então essa etapa é dispensável. Aceite que seus textos serão sempre medíocres e continue fazendo histórias que serão consumidas apenas por seu círculo de amizades.

Se, por outro lado, você quer mesmo ser escritor e conquistar cada vez mais leitores, então talvez deva considerar a contratação de uma pessoa que faça esse trabalho profissionalmente. O custo desse tipo de serviço é proporcional ao tamanho do texto analisado, portanto, se você escreve contos curtos, não vai gastar muito. O benefício para seu aprendizado, no entanto, será imenso. Um profissional competente não só vai apontar suas falhas e sugerir formas de corrigi-las, mas falará do texto como um todo: conteúdo e forma. Também não temerá lhe dizer a verdade por medo de ferir seus sentimentos.

Em resumo, quando poderemos, então, considerar que o texto está realmente pronto?

Quando ele tiver passado pelos dois filtros: o do autor (ou autora) que o revisou até não encontrar mais erros, e o do crítico, que apontou os erros que o(a) autor(a) não foi capaz de ver. Como todos somos humanos, ainda poderá haver falhas, mas esse é o mínimo que se deve fazer para considerar um texto como finalizado e aceitável para divulgação ao público.

O importante é que ninguém pode se considerar escritor(a) se não estiver disposto(a) a revisar o texto antes de publicá-lo. A maior parte do trabalho de escrita é justamente a revisão. Um texto não revisado, não é um texto, é um rascunho. E escritores(as) de verdade não publicam rascunhos.





A propósito, caso tenha interesse em contratar um serviço profissional de revisão do seu texto, pode fazer um orçamento com a Oficina do Escritor.

domingo, 20 de agosto de 2017

Dois erros comuns em relação ao corretor ortográfico

Há dois erros muito comuns com os quais me deparo em textos que devo revisar.


O primeiro é não confiar no corretor ortográfico. Não sei se o desligam para evitar as marquinhas de correção, ou se simplesmente ignoram as palavras sublinhadas em vermelho. É lógico que ele não é perfeito. Mas por que não usá-lo? O editor de textos possui recursos para evitar que palavras corretas apareçam como erradas. Se o corretor indica uma palavra que temos certeza de estar certa, basta clicar com o botão direito sobre ela e escolher a opção de acrescentá-la ao dito dicionário.

O risco de cometer esse primeiro erro é enviar um texto cheio de palavras erradas e que, ainda por cima, estarão em destaque no editor de textos do receptor.

O segundo erro comum é justamente o contrário. Trata-se de confiar demais no corretor ortográfico. É achar que ele fará todas as correções possíveis e que, ao aceitar a sugestão de substituição em todas as palavras sublinhadas em vermelho, não haverá mais erros. Grande engano. Isso também evidencia que a pessoa desconhece o funcionamento do corretor ortográfico.

Esse recurso consiste numa simples verificação das palavras digitadas contra um banco de dados a que chamam de dicionário. Se a palavra está lá, ele não a marca. Se está, ele põe um sublinhado vermelho sinuoso sob a palavra digitada. Se, por exemplo, você escreveu “calorozamente”, como essa palavra não consta no dicionário, ela será identificada como errada. Então você poderá deixar o aplicativo substituí-lo pela palavra sugerida – “calorosamente” –, ou apenas trocar o “z” pelo “s”.

Mas há muitos casos em que o corretor não identifica o erro da palavra, pelo simples fato de que a palavra existe e consta do dicionário. “Mas então”, você poderá se questionar, “não significa que ela está certa?” Não. O fato de a palavra existir não significa que ela está sendo usada no contexto correto. A palavra existe, está escrita de forma correta, mas não deveria estar lá.

Talvez você entenda melhor com um exemplo. As palavras “viagem” e “viajem” existem. Ambas são corretas. A primeira é um substantivo. A segunda é o verbo viajar, na terceira pessoa do plural, presente do subjuntivo. Portanto, se a frase for: “Espero que façam uma boa viajem”, não haverá marcação de erro, embora seja errado usar o verbo no lugar do substantivo.

Enfim, apesar de ser chamado de dicionário, ele é apenas um banco de dados que confere se a palavra existe ou não. O aplicativo não é capaz de identificar se a palavra é adequada ao contexto. Pensa que esse é um caso atípico ou raro? Garanto que não. Veja os pares de palavras a seguir e tente imaginar frases com essas palavras trocadas: acharam/acharão, comeram/comerão, angústia/angustia, mágoa/magoa, calcada/calçada, ágora/agora, específica/especifica. Esses são só alguns exemplos. Há muitos casos mais. São palavras que, por existirem nas duas formas, o corretor não identificará como erradas. Portanto, se for esquecido um acento ou cedilha, a frase ficará errada e apenas uma leitura atenta poderá detectar isso.

O corretor ortográfico é só uma ferramenta para ajudar a detectar erros de digitação. Ele não corrige seu texto. A revisão é indispensável. Não duvido que os programas fiquem cada vez melhores e sejam cada vez mais capazes de identificar esse tipo de erro. Mas até lá, conhecer gramática e ortografia ainda são essenciais para quem precisa escrever um texto corretamente. 

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Núcleos e concordância

Já ouvi ou li muita recomendação de usar preferencialmente frases curtas para se produzir um bom texto. Eu discordo. Muitas vezes não é tão simples resumir uma frase complexa ou quebrá-la em períodos menores. No entanto, devo admitir que é muito comum ver erros de concordância em frases mais longas, geralmente causados pelo grande distanciamento entre os termos que deveriam concordar.

O truque para detectar esses é nos atentarmos aos núcleos do sujeito e do predicado.

Num blog sobre cinema, encontrei o seguinte trecho, que me motivou a escrever este artigo:

“Tudo que os Vingadores enfrentaram até agora os conduziram até esse momento. O destino da Terra e a existência em si nunca estiveram mais ameaçadas.”

Nos dois casos, há erro de concordância. Um verbal e outro nominal.

Analisemos a primeira:

“Tudo que os Vingadores enfrentaram até agora os conduziram até esse momento.”

O núcleo do sujeito é “tudo”. Porém, nessa frase, ele vem acompanhado de vários acessórios, ficando assim: “Tudo que os Vingadores enfrentaram até agora”. Isso tudo é o sujeito. Dentro dele, ainda há uma oração subordinada adjetiva restritiva. Essa oração restringe a palavra “tudo”, isto é, define que não é qualquer “tudo”, mas apenas o “que os Vingadores enfrentaram até agora”.

Acontece que o verbo conduzir refere-se a esse núcleo do sujeito e com ele deve concordar. Não se diz “tudo conduziram”, mas “tudo conduziu”. Portanto, a primeira frase só ficará correta se for: “Tudo que os Vingadores enfrentaram até agora os conduziu até esse momento.”

Agora vamos à segunda frase: “O destino da Terra e a existência em si nunca estiveram mais ameaçadas”. Neste caso temos um sujeito composto: “O destino da Terra” e “a existência em si”, cujos núcleos são “destino” (masculino) e “existência” (feminino).

Quando temos um conjunto formado de palavras masculinas e femininas, e um adjetivo comum relacionado a essas duas palavras, esse adjetivo deve estar no masculino plural. Portanto, “destino” e “existência” estão “ameaçados”. Eles não podem estar “ameaçadas”.

Logo, a frase escrita corretamente ficaria: “O destino da Terra e a existência em si nunca estiveram mais ameaçados.

Esses dois erros poderiam ser evitados se fosse dada atenção ao núcleo do sujeito. Concordância verbal e nominal não são difíceis, mas a distância entre os termos na oração pode dificultar a identificação de quem concorda com quem.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

A “senhorita” está em coma.

Excepcionalmente, publicarei este artigo nos meus dois blogs. Ele diz respeito a ambos, porque trata de língua portuguesa e não deixa de ser um pitaco, uma opinião.

A palavra “senhorita” está fadada a desaparecer. Ela não tem mais sentido. Seus dias estão contados.

E por que eu digo isso?

Num passado não muito remoto, o papel da mulher na sociedade era ser propriedade do homem. A forma como isso se dava diferia de uma região pra outra. Em alguns lugares a submissão era total. O homem fazia o que bem entendia e a mulher acatava. Silenciava, obedecia e até apanhava. Em outros, havia uma submissão mais velada. Embora houvesse uma aparente liberdade, elas eram educadas para cuidar da casa enquanto o homem trabalhava. Seus brinquedos eram bonecas, fogões, pias. Quando um pouco maiores, ajudavam a mãe a lavar a louça enquanto os meninos iam jogar bola.

O sonho dessas mulheres era conseguir um bom casamento. Ainda assim, muitas vezes nem eram elas que faziam a escolha. No casamento elas mudavam de dono. O pai passava a propriedade da filha para o genro, seu novo dono. Isso ainda é representado nas cerimônias de casamento, em que o pai conduz a noiva ao altar e a entrega ao noivo.

Mas vivemos um tempo em que, felizmente, isso está mudando. Felizmente, porque é importante acontecer, embora não aconteça de forma tão rápida nem fácil. O machismo e o paternalismo ainda estão muito enraizados na cultura de homens e, lamentavelmente, também de mulheres.

E é nesse ritual matrimonial que a palavra “senhorita” se manifesta. A mulher era senhorita enquanto propriedade do pai. Como num cenário de hierarquia, senhorita era uma posição subordinada aos pais: o senhor e a senhora. Após o casamento, ela subia de hierarquia, supostamente no mesmo nível hierárquico do seu marido e senhor. Friso: supostamente.

Chamo ainda a atenção para o fato de que o filho do casal, quando estes tinham um funcionário ou empregado, era tratado por senhor. Nunca existiu um “senhorito”.

No cenário que temos hoje, a mulher já não precisa sonhar com um casamento para ter uma ilusória independência dos pais. Há alternativas. Há um mercado de trabalho em que elas podem se tornar senhoras sem depender de um casamento em que apenas transferirão a relação de dependência. E esse mercado é crescente. Antes era limitado a magistério, enfermagem, serviços domésticos, artes e prostituição. Mais tarde, garçonetes e comissárias. As mulheres provaram ao mundo que elas podem ser também médicas, engenheiras, pilotas, empresárias, mecânicas, atletas, marceneiras, tudo. Elas têm capacidade física e intelectual para exercer qualquer ofício que desejem. Então, se ela for uma profissional solteira, independente financeira e socialmente de seus pais, qual a finalidade de serem chamadas de senhoritas?

Essas mulheres são senhoras. Não por estarem ligadas a um senhor que as governe, mas por terem autoridade sobre a própria vida, por fazerem suas escolhas sem precisarem pedir bênçãos a ninguém.

O termo “senhorita” está ficando restrito. Seu valor está mais atrelado à idade que ao estado civil. Eu me recuso a chamar uma mulher independente, adulta, de senhorita, apenas pelo fato de ela não ter se casado. Para mim, essa mulher é uma senhora. Ela dirige a própria vida. É dona de si.

E não vejo por que a criança, ainda no seio familiar, precise dessa diferenciação. Se o irmão dela é tratado por senhor (ou senhorzinho), ela bem pode ser senhora (ou senhorinha). Afinal, em relação aos empregados da família, elas são patroazinhas também.

Ao final, o termo ficará moribundo, respirando por aparelhos ligados aos concursos de beleza. E, ainda assim, em inglês, o que torna a palavra ainda mais apagada.

Descanse em paz, “senhorita”.